Nosso Mundo
 
29-Abril-2008, 07:16:02
Quando ser gay é crime



Você sabe o que países tão distintos como Cabo Verde, Nigéria, Birmânia, Butão, Zimbábue, Emirados Árabes e Tunísia têm em comum? Acredite-se se quiser, mas em todos eles ser homossexual não é apenas tabu, mas crime, muitas vezes punido com prisão perpétua.

Nessas e em outras dezenas de lugares, incluindo Togo, Síria, Sri Lanka e Marrocos, se duas pessoas adultas forem pegas transando, mesmo que dentro de suas casas, correm grande risco de parar na cadeia. No Irã, a situação é ainda pior, pois gays e lésbicas com frequência são condenados à morte. Segundo pesquisas feitas por ONGs de direitos humanos, desde 1979 o país já executou 4000 membros de minorias sexuais. Em 2005, a execução de dois rapazes gays chocou o mundo, gerando uma avalanche de protestos (veja fotos da execução abaixo).



Em geral, essas leis são justificadas em nome da “moral e dos bons costumes”, mas raramente costumam definir de forma clara o que significa “moral” e muito menos “bons costumes”. Em 2004, um juíz do Kansas justificou a existência de uma lei estadual anti-sodomia porque, segundo ele, é preciso que o governo proteja o “casamento e a procriação da sociedade”. Para o tal juíz, é necessário combater o homossexualismo pois se trata de uma ameaça à continuação de nossa espécie. Além de macabra, a explicação do juíz americano em muito se parece com a justificativa nazista para se perseguir e matar gays na Europa. Veja só que um oficial nazista disse durante um comício em 1933 na Alemanha: “Não é necessário que vocês [gays] e eu vivamos, mas é necessário que o povo alemão viva. Portanto, nós rejeitamos vocês, assim como rejeitamos qualquer coisa que possa ferir nosso povo”.

Quando os europeus colonizaram a África, levaram com eles muitas dessas leis anti-sodomia. Quando foram embora, deixaram o preconceito como legado, e muitos países africanos até hoje as mantêm, como é o caso do Burundi, Congo e Etiópia. No mapa abaixo com as piores regiões do mundo para se visitar de você for homossexual, dá para se ter uma idéia de como a África e o Oriente Médio figuram entre os lugares mais tacanhos do planeta quando o assunto é direitos das minorias sexuais.




Escondidas atrás de um discurso fascista e moralista, essas leis violam os mais fundamentais direitos humanos, como o direito à privacidade. Segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem, nenhum ser humano pode sofrer intromissões em sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques a sua honra e reputação.

Para informar ao mundo sobre os direitos inalienáveis que gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros possuem pelo simples fato de serem humanos, foi lançado no ano passado os Princípios de Yogyakarta (www.yogyakartaprinciples.org), que explicam por que a orientação sexual de uma pessoa jamais pode ser motivo para que seus direitos sejam violados.

Respeitar o outro e suas escolhas, incluindo as sexuais, é um dever de todos nós.
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24-Abril-2008, 00:58:02
Entre a vingança e o perdão



Países que passaram por terríveis períodos de guerra, violência ou brutal ditadura sempre enfrentam uma dúvida crucial quando uma nova era mais pacífica se inicia: como lidar com o passado da melhor forma possível e seguir adiante rumo a um futuro mais cheio de esperança.

Não há regras, e existem muitas opções entre a vingança e o perdão (ou, em alguns casos, o esquecimento). Veja o exemplo da República Democrática do Congo (foto acima). Depois da guerra que destroçou o país entre 1998 e 2003, provocando a morte direta ou indireta de mais de 5 milhões de pessoas, o governo provisório decidiu anistiar boa parte dos envolvidos em crimes hediondos, mesmo aqueles que cometeram inacreditáveis atos de barbárie (incluindo estupros em massa e canibalismo). O mesmo se deu no Brasil, que amargurou boas décadas sob regime militar, mas onde uma ampla anistia impediu que torturadores e assassinos fossem parar no banco dos réus.

A palavra anistia, por sinal, vem do termo grego para “esquecimento” ou “amnésia”. No Dicionário Houaiss, anistia é definida como “esquecimento” ou ainda “perdão em sentido amplo”. Mas esquecer é bem diferente de perdoar, principalmente quando se tratam de violações em massa de direitos humanos.

Muitas vezes povos se recusam a esquecer seus traumas. Em Ruandapor exemplo, onde em cerca de 100 dias membros da etnia Hutu mataram ao menos 800 mil pessoas em 1994, o caminho escolhido foi a Justiça. Além do Tribunal Internacional para Ruanda, pessoas acusadas de cometerem genocídio estão sendo julgadas em diferentes sistemas domésticos, que vão de cortes formais aos julgamentos “Gacaca”, realizados em vilarejos segundo tradições locais (foto abaixo). Escrevi “estão sendo” pois, apesar de ter acontecido há quase 15 anos, o genocídio envolveu milhares de pessoas e até hoje (e por muitos anos ainda) Ruanda está julgando os acusados.



Outras nações, como o Chile, erguem memoriais ou museus para que os traumas do passado não sejam esquecidos pelas futuras gerações. Outros ainda, como no caso da Alemanha em relação aos judeus, tentam compensar os sofrimentos de vítimas e familiares com pagamentos em dinheiro, o retorno de propriedades roubadas ou outros tipos de reparações.

Como sabiamente escreveu Martha Minow, autora do livro “Between Vengeance and Forgiveness” (Entre a Vingança e o Perdão), seja lá qual for o mecanismo escolhido para se lidar com abusos de direitos humanos do passado, esquecer completamente o assassinato de um filho, o estupro de uma mãe, a destruição de uma cidade inteira ou o extermínio de um povo é praticamente impossível. Traumas e feridas como essas jamais serão cicatrizadas, por mais sinceros que sejam os pedidos de perdão.
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21-Abril-2008, 16:05:38
Escravas do lar tipo exportação




Todos os anos, milhões de mulheres e garotas saem de seus países para tentar a vida como empregada doméstica em lugares como os Estados Unidos, Arábia Saudita e Europa. São trabalhadoras brasileiras, indonésias (como as da foto acima), chadeanas, marroquinas, guatemaltecas, mexicanas, entre outras tantas nacionalidades, que deixam filhos, maridos e pais para trás em busca de uma vida mais digna – ou algum meio de sustentar a família e escapar da miséria.

Em seus novos empregos, elas costumam enfrentar os mais diversos tipos de abusos contra o ser humano: de horas de trabalho excessivas e salários baixíssimos a maus-tratos físicos e violações sexuais. Por serem estrangeiras, são quase sempre excluídas das leis trabalhistas locais e simplesmente ignoradas pelas autoridades.



No Sri Lanka, por exemplo, todos os anos cerca de 125 mil mulheres partem para o Oriente Médio para trabalharem como domésticas. De acordo com um relatório da organização de direitos humanos Human Rights Watch, elas mandam para casa anualmente algo em torno de 2.3 billhões de dólares – mais de 9% do PIB anual do Sri Lanka. Por isso, o governo faz vista grossa aos maus-tratos que suas cidadãs recebem em lugares como Kuwait, Líbano e Emirados Árabes Unidos, onde elas não contam com nenhuma lei que as defenda de abusos dos patrões.

Em 2007, por exemplo, sete pessoas de uma família Saudita espancaram até a morte duas domésticas da Indonésia, alegando que as vítimas praticavam “magia negra” em sua casa. As autoridades locais prenderam os autores dos crimes, mas nada fizeram para mudar a legislação do país, que emprega mais de 2 milhões de domésticas “importadas” mas cujas leis não oferecem nenhum tipo de proteção a essas trabalhadoras estrangeiras.

Por acontecerem dentro de casa, na vida privada, os abusos quase nunca viram notícia e permanecem impunes. Enquanto isso, esse vergonhoso tipo de exploração humana cresce calado, no quartinho de empregada de países que podem se dar ao luxo de importar escravos.
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08-Abril-2008, 17:11:49
A bioparanóia de Bush coloca você em risco



Desde 9/11, a administração Bush vem gastando oceanos de dólares para desenvolver projetos de biodefesa com o objetivo de proteger a América de supostos “bioataques” com vírus, bactérias e outros organismos com poderes destrutivos. Desde 2001, o país já desembolsou mais de 40 bilhões de dólares para criar formas de se defender dos “bioterroristas”.

Além de espalhar pelas maiores capitais caríssimos sensores que detectam agentes patogênicos em segundos e outras invenções mirabolantes, Bush está construindo diferentes tipos de laboratórios com a finalidade de pesquisar organismos que podem ser usados para destruir a América.



Com a desculpa de que a América precisa ser protegida a qualquer custo, Bush virou as costas para a Convenção de Armas Biológicas, que entrou em vigor em 1975 e que proíbe qualquer tipo de projeto de desenvolvimento de agentes biológicos cujo objetivo não seja pacífico.

Especialistas que se opõem aos projetos de Bush dizem que as pesquisas desses laboratórios serão feitas em segredo e sem nenhum tipo de monitoramento para verificar se serão conduzidas com ética e cuidado. Outros afirmam que Bush está dando péssimo exemplo e que isso abre caminho para uma “corrida biológica” em que os demais países se sentirão na obrigação de seguir a mesma linha (incluindo governos “gente fina” como China e Irã). Um expert americano em biosegurança diz ainda que há grandes chances de as descobertas das pesquisas caírem em mãos erradas e que o mundo todo pode pagar caros pelas megalomanias de Bush e cia.

Cientistas de toda a América vêm denunciando a política de Bush de aterrorizar a população para que seus projetos milionários de biodefesa sejam aprovados sem protestos, acrescentando que um ataque bioterrorista das proporções que o presidente norte-americano tanto aguarda é bem pouco provável.

Para que os Estados Unidos se protejam, o planeta inteiro tem de assumir os riscos. Obrigada, Bush, por ser um cara tão bacana.
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02-Abril-2008, 15:10:12
Epidemia de estupro faz do Congo o pior lugar da Terra



Do tamanho da Europa ocidental, a República Democrática do Congo é um dos países com maiores recursos naturais de África. Tem diamantes, cobre, cobalto e uma infinidade de outras riquezas que facilmente poderiam fazer da nação uma potência regional. Infelizmente, o Congo sofre do que se costuma chamar de a “maldição dos recursos naturais”. Há anos governos corruptos e milícias sanguinárias transformaram o país na melhor versão terrestre do inferno, onde atualmente se concentram as maiores atrocidades cometidas contra seres humanos no mundo.

Na parte leste do país, especialmente na região de Kivu (veja mapa abaixo), uma “epidemia de estupro” tem atingido milhares de mulheres – algumas com menos de 4 anos de idade. Segundo a ONU, só em 2006 cerca de 27 000 mulheres foram vítimas de violência sexual em Kivu, e a própria organização internacional admite que o número oficial provavelmente se refere a apenas uma pequena parte das vítimas.



Um documentário chocante, “The Greatest Silence: Rape in the Congo”, acaba de ser lançado e traz entrevistas com mulheres que não só foram estupradas por grupos de mais de 20 homens, mas que tiveram de assistir seus maridos e filhos serem assassinados durante ataques a vilarejos. Feito por Lisa F. Jackson, o filme mostra ainda entrevistas com os estupradores, que admitem com naturalidade em frente à câmera como o estupro se tornou banalidade no país. Um deles, membro do exército congolês, diz que “estuprar dá força ao espírito e ajuda na guerra contra os inimigos”.

Um dos personagens mais sensacionais do filme é uma policial que cuida, ao mesmo tempo, dos casos de estupro e de abusos a crianças em Kivu. Ela trabalha sozinha, sem nenhum apoio maior do governo e tem muitas vezes de pagar o próprio transporte para se deslocar até os pequenos vilarejos e entrevistar as vítimas.

O presidente Joseph Kabila não faz nada para colocar um fim na situação, e o Conselho de Direitos Humanos da ONU recentemente não renovou o mandato de seu expert para o Congo. Ou seja, nem o governo local e muito menos a comunidade internacional ligam para o que acontece por lá.

Enquanto isso, mais e mais vítimas padecem em um dos mais vergonhosos massacres contra mulheres da história da humanidade.
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25-Março-2008, 16:17:19
Somaliland: independência ou morte



Desde 1991, a República de Somaliland vive como um país independente. Tem presidente, eleições diretas, moeda própria, hino, bandeira, forças de segurança e até passaporte para seus cidadãos. O único problema é que nenhuma outra nação do planeta reconheceu até agora sua existência.

Explicando melhor: Somaliland fica no norte da Somália (veja mapa acima), país africano considerado o mais caótico do mundo e onde não há um governo central desde 1991, quando o sanguinolento presidente Siad Barre foi deposto por clãs rivais. Ex-colônia britânica, Somaliland se uniu à ex-colônia italiana Somália logo após sua independência, em 1960. A união dos dois territórios foi uma catástrofe desde o início, e Siad Barre perseguiu e exterminou grande parte dos Somalilanders, considerados rivais. Acredita-se que, entre 1983 e 1991, Barre tenha mandado matar mais de 50 000 pessoas no norte do país, que hoje ostenta o triste título de região com a maior densidade de minas terrestres do mundo.

Diferentemente da parte sul, em Somaliland os clãs não se digladiam por poder e, desde a independência, o “país” vive em relativa calma. Sem contar com nenhum apoio de governos internacionais ou consultoria de ONGs de primeiro mundo, os Somalilanders buscaram em suas tradições várias boas soluções para acabar com a guerra entre clãs locais. Uma delas é uma espécie de parlamento, o Guurti, formado por líderes anciãos, que têm como uma de suas funções convencer os jovens a se desarmarem e se unirem pelo bem do país (veja abaixo foto de integrantes do Guurti).



O maior problema de Somaliland segue sendo sua falta de reconhecimento pela comunidade internacional. Sem isso, o país não consegue entrar em acordos internacionais, ser beneficiado por auxílios a nações mais pobres dados pela ONU ou outras instituições mundiais, não consegue atrair investidores e, o pior de tudo, segue sendo apenas uma espécie de “terra do nunca”, onde o passaporte existe, mas não serve para nada na prática.

Os Somalilanders estão cansados de guerra e só querem viver em paz e com dignidade. Merecem respeito, consideração e apoio da comunidade internacional – ou seja, dos países ricos e também de todos nós.
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14-Março-2008, 20:49:39
Sabe o que é um IDP?




IDP, assim mesmo usando a sigla em inglês, quer dizer Internally Displaced People e, em poucas palavras, significa todo mundo que foi forçado a deixar sua casa, mas que continua dentro dos limites de seu país. Não confundir com refugiado, que é aquela pessoa que cruzou a fronteira e adentrou um outro país. IDPs continuam em seu território nacional, mas tiveram de abandonar sua cidade, estado ou região por conta de “forças maiores” – leia-se conflitos internos ou desastres naturais.

Mas qual a importância disso, não é? Toda. Acredite se quiser, mas enquanto refugiados têm toda uma lista de direitos para protegê-los, reunidos em uma importantíssima convenção internacional promulgada em 1951 (www.unhchr.ch/html/menu3/b/o_c_ref.htm), IDPs vivem ao deus-dará.

Em razão de os IDPs encontrarem-se dentro de seu território, a “comunidade internacional” defende que é seu próprio governo que deve tomar conta deles. Mas, em um raciocínio rápido, é exatamente por causa de governos problemáticos que existem tantos IDPs hoje no mundo. Como consequência, milhões de IDPs ficam sem receber ajuda ou proteção da ONU ou outros países, pois se tratam de “assuntos internos”.

Conflitos entre rebeldes e governos instáveis têm expulsado milhões de pessoas de suas casas, como é o caso do Quênia, Sudão (foto acima) e República Central Africana. Para piorar, desde do fatídico 11 de setembro, países em geral têm criado mecanismos cada vez mais duros para aceitar refugiados, e a única saída para quem precisa fugir de um conflito é ir para outra região de seu próprio país – e assim viver na penúria de ser um IDP.

A guerra no Iraque é um perfeito exemplo. EUA e Europa têm simplesmente dado as costas para os milhões de iraquianos que tentam se salvar. Países vizinhos, como Jordânia e Irã, estão apinhados de refugiados e dizem não poderem receber mais gente. A ONU calcula que existam hoje cerca de 3 milhões de IDPs no Iraque (foto abaixo), uma catástrofe humanitária poucas vezes vista.



Nosso grande Sergio Vieira de Mello (ver texto abaixo) trabalhou décadas para fazer algo por eles, e o máximo que conseguiu foi a criação de um guia com princípios básicos de proteção aos IDPs (www.reliefweb.int/ocha_ol/pub/idp_gp/idp.html). Trata-se, claro, de passo importante, mas que na prática ainda é muito pouco.

O que é possível fazer para ajudar os IDPs? Nada. Apenas ter fé de que um dia líderes mais corajosos resolvam criar vergonha na cara e ajudar quem mais precisa.
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07-Março-2008, 23:17:23
Tributo a Vieira de Mello



No Brasil, Sérgio Vieira de Mello nunca foi muito conhecido, especialmente por ter passado grande parte da vida no exterior. Filho de diplomatas e com décadas de carreira na ONU, Mello trabalhava como representante da organização no Iraque quando morreu em um atentado.

Homem de confiança do então secretário-geral Kofi Annan, ele teve papéis importantíssimos como mediador de conflitos em Kosovo, Timor Leste, Líbano até ser escolhido para o mais alto cargo em direitos humanos dentro da ONU.

Vieira de Mello é tema de uma super biografia lançada há duas semanas por uma das maiores especialistas em de direitos humanos dos Estados Unidos, Samantha Power. Ganhadora do Pulitzer por seu sensacional “A Problem from Hell”, Samantha escreve bem como poucos. É desafiadora, corajosa e nada burocrática. Seguindo sua linha, a autora tece elogios a Vieira de Mello, mas não deixa de apontar como, em nome da diplomacia, ele se aproximou de gente da laia de Slobodan Milosevic, Ieng Sary, sanguinário Khmer Rouge, e, claro, George Bush.



Em 2003, durante uma conferência para a imprensa sobre minas terrestres, uma bomba destruiu o edifício da ONU em Bagdá. Dezenas de altos funcionários da organização morreram. Gil Loescher, grande especialista em refugiados, ficou paraplégico.

Assisti a uma palestra de Loescher alguns meses atrás aqui em Nova York. Além de falar sabiamente sobre a tragédia de milhões de refugiados, ele mencionou o amigo Vieira de Mello de forma comovente.

O atentado mostrou ao mundo o quanto a ONU pode ser vulnerável quando percebida por uma das partes de um conflito como “estando a serviço do inimigo”. Mas, como defende Samantha em seu novo livro, se um dia administrada com seriedade e competência, tem potencial para fazer do planeta um lugar melhor. Pena que Vieira de Mello não esteja aqui para ajudar em mais essa empreitada.

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15-Fevereiro-2008, 19:40:40
Vida dura



Hoje recebi uma ligação de um amigo chadeano que, por causa da guerra, teve de se refugiar em Camarões. N’Djamena, a capital do Chade, fica a poucos metros de Kousseri, cidade do país vizinho que, desde o início dos combates na capital, já recebeu mais de 30 mil pessoas (como as da foto acima).

É duro conhecer pessoas maravilhosas, que já vivem precariamente em um país miserável, e depois saber que tiveram de largar tudo para trás para não morrer em um conflito. E que hoje não têm nada nem ninguém com quem contar.

Fora os tiros trocados entre tropas do governo e rebeldes, ainda houve muitas casas pilhadas e lojas e mercados saqueados. Mesmo com o fim da batalha, centenas (ou milhares) de chadeanos não querem retornar à capital com medo de uma nova onda de violência.

E a gente aqui sem poder fazer nada para ajudar. Como diz aquela música do Chico, “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu…”.
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14-Fevereiro-2008, 02:29:30
“Eu peço desculpas”




Esta semana, o primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, fez um pedido formal de desculpas ao povo aborígene de seu país por todas as atrocidades que sucessivos governos cometeram contra eles. Em um discurso, ele se desculpou por leis que causaram aos indígenas “profunda tristeza, sofrimento e perda”.

Ele chegou até a mencionar a chamada “Geração Perdida”, formada por crianças aborígenes que foram roubadas de seus pais por australianos brancos para serem criadas na cultura “ocidental”. Os roubos, ocorridos do século 19 até meados dos anos de 1960s, eram fruto de uma política violenta do governo para assimilar, e assim destruir, os indígenas e sua cultura.



Em um ato histórico, o primeiro-ministro foi a público fazer um oficial pedido de desculpas por tanta violência. Isso pode não significar muita coisa na prática, muito menos pode ser encarado como substituto para tantas crianças roubadas. Mas serve, sim, para reconhecer o sofrimento de um povo que praticamente foi exterminado, para deixar um testemunho histórico de tudo o que enfrentaram e para ajudar a devolver a dignidade às novas gerações.

Grande iniciativa do governo australiano, que assim fomenta paz e reconciliação entre os dois povos de seu país.

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08-Fevereiro-2008, 23:09:54
Kouchner, o polêmico sem fronteiras





Podem meter o pau nele, mas Bernard Kouchner (foto acima) é e sempre será uma grande figura. Para quem não sabe, Kouchner hoje trabalha como ministro das relações exteriores da França, mas, antes de se debandar para o lado do presidente-celebridade Nicolas Sarkozy, mudou os rumos do que atualmente chamamos de humanitarianismo.

Nos anos 70, o jovem médico Kouchner decidiu ir para a Nigéria pela Cruz Vermelha ajudar na guerra de Biafra, região miserável do país africano. Uma das mais antigas organizações de ajuda humanitária, a Cruz Vermelha cuida de vítimas de todos os lados de um conflito, sem tomar nenhuma posição política. Seu princípio é de que só se mantendo 100% neutro é possível ganhar a confiança de governos e rebeldes e assim chegar a vítimas que precisam de socorro imediato.

Diante de milhares de inocentes morrendo de fome por causa do embargo imposto pelo governo – arma usada pelo presidente para derrotar os rebeldes da Biafra, Kouchner ficou enfurecido com a, segundo ele, passividade da Cruz Vermelha. Abandonou a organização e fundou os Médicos sem Fronteira, hoje uma das mais competentes e respeitadas ONGs do planeta.

Os Médicos sem Fronteira iniciaram uma nova era do humanitarianismo ao tomar posições políticas diante de conflitos e usar as informações colhidas em campo para denunciar as atrocidades de governos e milícias mundo afora.

Tempos depois, Kouchner brigou com os colegas e abandonou a ONG que ajudou a criar. Fundou outras organizações parecidas, cuidou de pacientes nos mais sangrentos conflitos, advogou a causa de milhões de vítimas dos mais variados lugares. Nos anos 70, chegou a pegar um barco e resgatar ele mesmo vietnamitas refugiados rejeitados pela “comunidade internacional” (foto abaixo).



Depois trabalhou para uma uma série de governos franceses, para horror dos humanitários. Este ano surpreendeu mais ainda ao aceitar ser ministro do conservador Sarkozy, cuja vitória foi um golpe para a França esquerdista. Dizem que Kouchner se “vendeu ao sistema”, mas é difícil acreditar que uma figura tão vanguardista, polêmica e consciente de seu tempo tenha se “vendido” por tão pouco.

Na semana passada, a revista do New York Times deu uma bela capa para Kouchner (foto abaixo). O texto, muito bem escrito, descreve as vaidades de um egocêntrico humanitário, mas também relata como um jovem médico francês mudou a forma como no passado se ajuda vítimas de outros países. Kouchner deu uma banana para a tal da pseudo-neutralidade e desde então usa todas as armas políticas para levar socorro a quem está desesperado.



Pena que resolveu apoiar Sarkozy.

Ainda assim, o cara tem uma biografia e tanto. Para quem não gosta de Kouchner, uma só pergunta: e você, o que está fazendo pelo mundo a sua volta?
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07-Fevereiro-2008, 23:51:24
Até tu, Angelina?




E nem a bonitona-e-humanitária Angelina Jolie escapou da cena clássica de se ver cercada de soldados em alguma terra distante com a qual a América trava uma guerra.

Marilyn Monroe alegrou a moçada de uniforme nos anos 50 na Coréia (foto abaixo) e outras zilhões de estrelas de Hollywood também foram dar uma forcinha aos bravos americanos que doam a vida ao seu país.



Nada contra a bela Angelina, que tem atraído a atenção do mundo todo para assuntos que ninguém dá a mínima. Apóia várias causas importantes e, corajosa, teve o filho na África. Mas ir para o Iraque, posar ao lado das tropas e até almoçar no refeitório militar é demais!

Ok, ela diz que foi para lá para “advogar”, como eles falam por aqui, a crise humanitária terrível que assola o Iraque. Mas acabou fazendo o papel da boa americana e foi lá tirar fotos com os senhores da guerra.

Um detalhe: diferentemente das guerras do passado, quando o serviço militar era obrigatório, hoje americano que se alista no exército vai porque quer – e principalmente para ganhar uma grana do governo.

Depois de dar autógrafos aos “pracinhas”, Angelina ainda deu uma entrevista exclusiva para a CNN… dureza.

Pelo menos vamos dar o braço a torcer: na entrevista, ela falou sobre os milhões de IDPs que sofrem hoje no Iraque. IDP, ou “internally displaced people”, é como a comunidade internacional chama as pessoas que foram expulsas de suas casas por causa da guerra, mas que não cruzaram a fronteira de seu país. Ou seja, por ainda estarem em seu território, não podem ser consideradas refugiados. Na prática, essas pessoas, diferentemente dos refugiados, não têm nenhuma proteção da ONU. Não há nenhuma lei ou órgão internacional que proteja os direitos dos IDPs.

No início da guerra, milhões de iraquianos fugiram para outros países, principalmente para vizinhos. Mas aos poucos essas nações começaram a fechar a fronteira, pois não tinham como absorver tanta gente.

Enquanto na Guerra do Vietnã os EUA até que receberam uma razoável quantidade de vietnamitas refugiados, são raríssimos os iraquianos aceitos aqui. A Europa também tem voltado as costas para a desgraça iraquiana.

Angelina poderia era ter se recusado a fazer parte dessa palhaçada criada pelos EUA e, aproveitando a fama, ainda protestar em frente às câmeras contra a política de imigração americana,que têm se recusado a receber iraquianos.

Posando do lado dos “marines”, Angelina provou o quanto é “boazinha”, e só. Triste.
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03-Fevereiro-2008, 23:26:36
Escapei por pouco



A foto acima é de uma das principais avenidas do Chade. Passei em frente a essa loja várias vezes antes de voltar para NY há 15 dias. Como já havia terminado meu trabalho e N’Djamena não é assim uma cidade sensacional, resolvi adiantar a passagem. Por sorte, escapei de uma guerra. Publicada pela BBC, a imagem foi tirada no sábado, dia 2 de fevereiro, quando cerca de 2000 rebeldes invadiram a capital.

Os estrangeiros estão sendo evacuados, como os que você vê na foto abaixo. No caso, “estrangeiros” se resume aos poucos norte-americanos, franceses e outros europeus que vivem lá. O Brasil não tem embaixada ou representação no Chade, e durante todo o tempo em que fiquei ali sabia que não haveria ninguém para me proteger caso algo acontecesse.



Imagino a cena se ainda estivesse lá. Eu parada próxima a uma fila de europeus na porta da embaixada da França implorando para me levaram junto com eles. “Se sobrar um espaçozinho no avião, o senhor quebra esse galho para mim?” Só de pensar, me dá calafrios.

Felizmente estou sã e salva. Mas e meus novos amigos chadeanos, que estão ao Deus-dará no meio da guerra civil? Como ficar feliz por estar “salva” se as pessoas sensacionais que eu acabei de conhecer podem estar entre os mais de 300 mortos vítimas da guerra que acabou de começar?

Tentei ligar para eles. Cortaram a conexão dos celulares. Só me resta ficar aqui torcendo para que nada de errado se passe com eles.

Quer saber mais sobre o Chade? Leia a reportagem escrita por mim no caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, publicada neste domingo (3/2).

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29-Janeiro-2008, 02:35:22
Férias do bem



Já planeja suas próximas férias? Em vez de ir (de novo) para alguma praia paradisíaca ou temporada de compras no exterior, por que não fazer algo diferente e passar um tempo como voluntário ajudando comunidades carentes ou grupos em risco, seja no Brasil ou outro lugar?

Ok, não precisa gostar da idéia logo de cara. Mas saiba que em vários países ser voluntário faz parte da cultura nacional, como nos Estados Unidos e muitas nações da Europa (onde celebridades como a Lucy Liu, da foto acima, viram e mexem também doam seu tempo à causa). Claro que isso parece “coisa de país rico”, que tem grana de sobra e as pessoas até têm tempo e dinheiro para “ajudar os outros”. Só que resumir dessa forma atitudes positivas que podem fazer a diferença não é apenas triste, mas medíocre.

Gastar um mês ou alguns dias de sua vida fazendo o bem pode transformar o mundo – começando pelo seu, que ganha assim outras dimensões do planeta onde vive. Você pára de “pensar pequeno”, como se diz por aí, e tem a chance de conhecer realidades diferentes, outros problemas e, o melhor, novas formas de ajudar os outros.

Agências humanitárias como a UNICEF têm filiais no Brasil e costumam receber voluntários do mundo todo. Foras as inúmeras ONGs locais que trabalham duro país afora para melhorar a vida de comunidades as mais diversas, da Amazônia às favelas do Rio. Se a grana anda curta, tente achar alguma organização perto da sua casa e se ofereça para passar as próximas temporadas de férias trabalhando lá.

No exterior, as opções são ainda maiores. A International Rescue Committee, por exemplo, é uma ONG norte-americana especializada em refugiados que sempre precisa de voluntários em quase todos os continentes. Outras do mesmo estilo são a Oxfam, Care e Médicos sem Fronteira. É uma ótima chance de conhecer pessoas interessantes, aprimorar o inglês e se sentir um ser humano melhor. Procure no website dessas organizações como se candidatar a uma vaga e parta para uma aventura diferente e muito mais engrandecedora que passar outras férias na praia.

Aqui vão os links:
UNICEF Brasil - http://www.unicef.org.br/
International Rescue Committee - http://www.theirc.org/
Médicos sem Fronteira - http://www.msf.org/
Oxfam - http://www.oxfam.org/
Care – www.care.org

Boa sorte!
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25-Janeiro-2008, 13:12:46
Nova velha história




No Quênia, a violência pós-eleições continua intensa. Mais de 250 mil pessoas saíram de suas casas por causa dos ataques de opositores do presidente Mwai Kibaki, que ganhou o pleito na base da malandragem.

Mas o que mais impressiona é o que foi publicado esta semana no New York Times. A reportagem descreve como a violência não é fruto de reações espontâneas, mas de calculados planos de etnias contra outras etnias. Para isso virar uma catástrofe de proporções terríveis, é rápido, caso ninguém faça nada.

Escolhi esta foto por motivos óbvios. Foi tirada pela Reuters em Mombasa, uma das grandes cidades do Quênia. Até nessas horas o futebol brasileiro mostra o quanto é popular. No Chade também vi muita gente com camisa do Brasil.

A imagem faz parte de um ensaio fotográfico publicado no site da Human Rights Watch, a maior organização de direitos humanos do mundo. Vale a pena conferir (http://hrw.org/photos/2008/kenya0108/index.html), é assustador.

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sobre o blog
Neste espaço a jornalista Erika Sallum escreve para quem acha que é possível construir um mundo melhor, onde todos vivam com mais dignidade, respeito e alegria. O blog estréia do Chade, nação da África central que figura entre os lugares mais pobres e turbulentos do planeta - e para onde Erika viaja como parte de sua tese de mestrado em direitos humanos na Universidade de Nova York.
 
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