Nosso Mundo
 
09-Janeiro-2008, 17:01:37

A luta continua, e a vitória é certa!




Cheguei ao Chade no dia 20 de dezembro. Após quase um mês por aqui, posso dizer de boca cheia: devem existir poucos lugares tão azarados, inóspitos, isolados e tristes neste planeta. Na poeirenta capital, N’Djamena, não há transporte público nem sistema de esgoto, dá para contar nos dedos as ruas asfaltadas, não existem semáforo ou qualquer sinalização para os calhambeques que insistem em trafegar pela cidade e coleta de lixo é algo do qual o governo jamais ouviu falar.

Para piorar, o país está entre os mais perigosos do mundo. Grande parte dos habitantes anda armada, não rola sair depois das 20h e o vai-e-vem de Toyotas cheias de metralhadoras e soldados mau-encarados é intenso.

Caramba, o que então eu vim fazer aqui?! Como parte de minha tese de mestrado em direitos humanos, que faço atualmente na New York University, resolvi pesquisar sobre a campanha internacional para levar a julgamento o ex-ditador Hissène Habré.

Habré governou o Chade de 1982 a 1990. Violento e paranóico, ele simplesmente começou a prender e matar grande parte da população. O cara assassinou mais de 40 mil pessoas, em um dos regimes mais violentos da África – e olha que o continente é rico em autocratas sanguinários.

Habré fugiu do país em 1990, dando lugar a outro regime ultra-repressivo. Mas um grupo de bravíssimos chadeanos que foram torturados na época do ditador resolveu se unir e, com a ajuda de organizações internacionais de direitos humanos, decidiu lutar para colocar o ex-presidente atrás das grades. Começou-se então uma campanha mundial para levá-lo a julgamento.

Assim que soube da existência desse grupo de vítimas, cuja história mobilizou advogados renomados e organizações como a Human Rights Watch, não pensei duas vezes. Respirei fundo, rezei para Deus me proteger de todo o mal, amém, e vim para cá conhecê-los. Minha intuição estava certa: poucas vezes algo mexeu tanto comigo.

A coragem, força de vontade e garra dessas pessoas é inacreditável. Mesmo com obstáculos gigantescos, eles têm fé de que sua luta continua, e a vitória é certa. É com grande alegria que eu divido sua história neste novo blog. A partir de amanhã, vou contar um pouco da saga desses chadeanos que tinham tudo para ficarem calados diante de tanta violência, mas resolveram botar a boca no mundo em busca de um futuro melhor e mais justo.
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15-Janeiro-2008, 11:52:01

Caçadores de ditador



Lembra do filme “O Último Rei da Escócia”, em que o talentoso Forest Whitaker encarna Idi Amin Dada, o sanguinolento líder de Uganda? Assim como Idi Amin, o ex-presidente do Chade Hissène Habré era do tipo que mandava matar qualquer um que tivesse a infelicidade de ser considerado por ele seu inimigo.

Em oito anos de governo, exterminou 40 mil compatriotas. Comandava diretamente uma polícia à la Gestapo, chamada DDS, cuja função principal era torturar e perseguir indiscriminadamente os habitantes. Na capital, N’Djamena, todo mundo tem uma história macabra para contar sobre os tempos em que Habré comandava a nação.

Em um país sem saída para o mar e onde as temperaturas costumam bater na casa dos 50 graus, ele teve a manha de cimentar a única grande piscina da capital para fazer do local câmeras de tortura subterrâneas. Gente finíssima…

Pelas atrocidades que cometeu, Habré pode ser incluído na lista dos presidentes mais arrepilantes de nossa história recente, como Idi Amin, Augusto Pinochet, do Chile, e Charles Taylor, da Libéria. Só que, enquanto Taylor está hoje sentado no banco de réus de um tribunal internacional, Habré aguarda julgamento desde 2000 em prisão domiciliar em sua confortável mansão no Senegal, para onde fugiu após ser deposto.

Politicagem, corrupção e falta de vergonha na cara são algumas das razões por que Habré ainda não foi levado a julgamento. Mas se ele corre o risco de ser responsabilizado por seus crimes, isso se deve a um grupo de bravíssimos chadeanos e ativistas internacionais de direitos humanos.

Organizados na Associação Chadeana de Vítimas de Repressão Política e Crimes e em parceria com ONGs do porte da Human Rights Watch, as vítimas de Habré dão duro desde os anos 90 para prender o ex-ditador. De ameaças de morte a falta de verba, os obstáculos que eles têm de enfrentar para continuar seu trabalho são gigantescos. Mas não intransponíveis.

A associação de vítimas é presidida por Clément Dhokot, que passou quatro anos preso sem saber o motivo e cujo “cargo” principal nas prisões de Habré era carregar os corpos dos detentos que morriam de tortura, doença ou fome. “O que mais me choca é até hoje eu não ter idéia do porquê passei tantos anos encarcerado”, me contou, emocionado. “Acho que foi porque consegui uma bolsa para estudar no exterior. Acabei parando na prisão por causa disso.”

Em nível internacional, seu grande companheiro de luta é Reed Brody, advogado e um dos grandes nomes da Human Rights Watch, a maior organização de direitos humanos do mundo. Juntos, eles e outros valentes idealistas batalham dia-a-dia para fazer com que o julgamento de Habré vire realidade.

Clément e Reed, que mora na Europa, se encontraram no começo deste ano aqui no Chade. Conversaram com diplomatas, reuniram-se com advogados locais e levantaram a moral das vítimas chadeanas, que estão cansadas de esperar por justiça há tantos anos. O título do primeiro post deste blog, “A luta continua, a vitória é certa”, foi dita por Reed para explicar para as vítimas que ainda haverá muito trabalho pela frente, mas que Habré tem mesmo grandes chances de ir para o banco dos réus. Que justiça seja feita, e logo.
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16-Janeiro-2008, 11:50:25

Babel de etnias



Com apenas 9 milhões de habitantes, o Chade é um país onde se falam mais de 200 línguas e dialetos. Apesar do altíssimo índice de analfabetismo – apenas 25.7% da população sabe ler (atrás até do Afeganistão) –, os chadeanos estão acostumados a falar quatro, cinco, seis línguas. Conheci um monte de gente fluente em sete e até oito idiomas – e que ainda se sentem mal por não saber inglês!

Uma conversa informal pode, por exemplo, começar em francês (a língua dos colonizadores), passar de repente para o árabe chadeano (outra língua oficial, mas só falada aqui) e descambar para o idioma de etnias como ngambaye, gorane, zaghawa ou ainda um dialeto falado apenas por um subgrupo de pessoas nascidas em uma determinada região. Ou seja, o país pode estar entre os mais miseráveis do mundo, mas por aqui a riqueza cultural é abundante.

Claro que tantas etnias juntas também são fruto de conflitos. Enquanto o norte do país é islâmico e pouco desenvolvido, o sul mais verdejante é dominado por cristãos e concentra os melhores índices econômicos. Mais do que tensões entre religiões, aqui a divisão norte-sul ainda é bastante forte, e todos os presidentes que já passaram pelo poder puxaram sardinha para uma ou outra região. O primeiro líder pós-colonização, por exemplo, era do sul e morreu assassinado por opositores do norte.

Já os anos Hissène Habré (1982-1990) foram únicos na história local: o ditador exterminou integrantes de quase todas as etnias – inclusive a sua, gorane. Se, por exemplo, ele achava que um ministro zaghawa estava conspirando para tirá-lo do poder, mandava massacrar toda a região dessa etnia, sem poupar mulheres, idosos ou crianças. Dizem que apenas gente da sua subetnia – os goranes anakaza – escaparam da sua fúria.

Os goranes são um povo altivo e rico do norte do país. Conheci um grupo de gorane kreda aqui em N’Djamena. Sempre com roupas lindas e impecavelmente brancas, eles têm pela escura, mas feições únicas, sempre com rosto ossudo e anguloso. São orgulhosos e sempre te olham de cima. Mas, se gostam de você, te levam para conhecer seu bairro, te preparam carneiro assado e te fazem se sentir em casa. O Hassan, que você pode ver na foto acima, não tem cara de muito fofo. Depois de uns minutos de conversa, virou companheiro inseparável e levou-nos para passear em lugares sensacionais na capital.

Eles me contaram do massacre de seu povo nos anos 80, quando Habré cismou que um gorane do seu governo era traidor. O ditador mandou prender todos os homens de vilarejos gorane, assassinou quase todos a sangue frio, queimou casas e roubou bens e animais. Os goranes que conheci me mostraram o corpo cheio de cicatrizes de tiros e tortura daquela época.

Por isso eles querem justiça. Mas, mesmo com a condenação de Habré, ainda vai demorar muito para que as etnias vivam em paz no Chade. O atual presidente, Idriss Déby, é zaghawa e governa protegendo seu grupo. Todos aqui no país são relativamente amistosos, mas ficam enfurecidos quando falam dos zaghawas, chamados de “intocáveis”.

Encontrei um belga que trabalha com refugiados na fronteira com o Sudão que me confirmou a má fama da etnia. “Se eu sem querer atropelar um zaghawa, tenho imediatamente de fugir do país. Caso contrário, eles me matam, e ninguém vai preso.” Ele não está exagerando, não. Aqui é assim. Bem-vindo ao Chade.
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sobre o blog
Neste espaço a jornalista Erika Sallum escreve para quem acha que é possível construir um mundo melhor, onde todos vivam com mais dignidade, respeito e alegria. O blog estréia do Chade, nação da África central que figura entre os lugares mais pobres e turbulentos do planeta - e para onde Erika viaja como parte de sua tese de mestrado em direitos humanos na Universidade de Nova York.
 
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