Nosso Mundo
 
22-Janeiro-2008, 01:06:10
Terra de corajosos



Foram 25 dias no Chade, nos quais conheci um dos países mais miseráveis do planeta, mas também um dos mais fascinantes. Apesar da falta de segurança, infra-estrutura e qualquer beleza, o Chade é um lugar repleto de coragem. Porque só com muita bravura para se morar em uma terra de ninguém, onde os governantes não estão nem aí para o povo e a violência é parte constante do dia-a-dia. Por aqui, morre-se com menos de 50 anos, não se vai à escola, vive-se doente e desnutrido e corre-se diariamente o risco de ser morto – seja por bandidos, rebeldes ou o próprio governo.

Mas é também no Chade onde vivem os mais bravos ativistas de direitos humanos que já conheci. Onde nasceu e ainda mora “maître” Jacqueline Moudeina, uma belíssima advogada e presidente da Associação Chadeana de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (veja foto dela abaixo). Há anos ela defende as vítimas do ditador Hissene Habre. Nesse tempo, acostumou-se com ameaças de morte. Até que um dia, durante uma manifestação pacífica em N’Djamena, uma granada de mão foi jogada propositadamente em sua direção. Maître (como se diz “doutor” em francês para se referir a advogados) Jacqueline levou um ano para se recuperar na França. E quem disse que ela desistiu da sua luta?



Altiva, inteligente, destemida, ela continua para cima e para baixo na poeirenta capital chadeana, mostrando para todos que a batalha pelos direitos humanos é mais forte do que qualquer ditadura. E que não se pode calá-la assim tão facilmente.

Por sua coragem e força de vontade, maître Jacqueline virou uma fonte de inspiração. Dessas que a gente não esquece tão fácil. Vou-me embora do Chade, mas levo comigo a lição de vida que ela – e todas as vítimas de Habré – me ensinaram.

Comentários () | permalink
25-Janeiro-2008, 13:12:46
Nova velha história




No Quênia, a violência pós-eleições continua intensa. Mais de 250 mil pessoas saíram de suas casas por causa dos ataques de opositores do presidente Mwai Kibaki, que ganhou o pleito na base da malandragem.

Mas o que mais impressiona é o que foi publicado esta semana no New York Times. A reportagem descreve como a violência não é fruto de reações espontâneas, mas de calculados planos de etnias contra outras etnias. Para isso virar uma catástrofe de proporções terríveis, é rápido, caso ninguém faça nada.

Escolhi esta foto por motivos óbvios. Foi tirada pela Reuters em Mombasa, uma das grandes cidades do Quênia. Até nessas horas o futebol brasileiro mostra o quanto é popular. No Chade também vi muita gente com camisa do Brasil.

A imagem faz parte de um ensaio fotográfico publicado no site da Human Rights Watch, a maior organização de direitos humanos do mundo. Vale a pena conferir (http://hrw.org/photos/2008/kenya0108/index.html), é assustador.

Comentários () | permalink
29-Janeiro-2008, 02:35:22
Férias do bem



Já planeja suas próximas férias? Em vez de ir (de novo) para alguma praia paradisíaca ou temporada de compras no exterior, por que não fazer algo diferente e passar um tempo como voluntário ajudando comunidades carentes ou grupos em risco, seja no Brasil ou outro lugar?

Ok, não precisa gostar da idéia logo de cara. Mas saiba que em vários países ser voluntário faz parte da cultura nacional, como nos Estados Unidos e muitas nações da Europa (onde celebridades como a Lucy Liu, da foto acima, viram e mexem também doam seu tempo à causa). Claro que isso parece “coisa de país rico”, que tem grana de sobra e as pessoas até têm tempo e dinheiro para “ajudar os outros”. Só que resumir dessa forma atitudes positivas que podem fazer a diferença não é apenas triste, mas medíocre.

Gastar um mês ou alguns dias de sua vida fazendo o bem pode transformar o mundo – começando pelo seu, que ganha assim outras dimensões do planeta onde vive. Você pára de “pensar pequeno”, como se diz por aí, e tem a chance de conhecer realidades diferentes, outros problemas e, o melhor, novas formas de ajudar os outros.

Agências humanitárias como a UNICEF têm filiais no Brasil e costumam receber voluntários do mundo todo. Foras as inúmeras ONGs locais que trabalham duro país afora para melhorar a vida de comunidades as mais diversas, da Amazônia às favelas do Rio. Se a grana anda curta, tente achar alguma organização perto da sua casa e se ofereça para passar as próximas temporadas de férias trabalhando lá.

No exterior, as opções são ainda maiores. A International Rescue Committee, por exemplo, é uma ONG norte-americana especializada em refugiados que sempre precisa de voluntários em quase todos os continentes. Outras do mesmo estilo são a Oxfam, Care e Médicos sem Fronteira. É uma ótima chance de conhecer pessoas interessantes, aprimorar o inglês e se sentir um ser humano melhor. Procure no website dessas organizações como se candidatar a uma vaga e parta para uma aventura diferente e muito mais engrandecedora que passar outras férias na praia.

Aqui vão os links:
UNICEF Brasil - http://www.unicef.org.br/
International Rescue Committee - http://www.theirc.org/
Médicos sem Fronteira - http://www.msf.org/
Oxfam - http://www.oxfam.org/
Care – www.care.org

Boa sorte!
Comentários () | permalink
03-Fevereiro-2008, 23:26:36
Escapei por pouco



A foto acima é de uma das principais avenidas do Chade. Passei em frente a essa loja várias vezes antes de voltar para NY há 15 dias. Como já havia terminado meu trabalho e N’Djamena não é assim uma cidade sensacional, resolvi adiantar a passagem. Por sorte, escapei de uma guerra. Publicada pela BBC, a imagem foi tirada no sábado, dia 2 de fevereiro, quando cerca de 2000 rebeldes invadiram a capital.

Os estrangeiros estão sendo evacuados, como os que você vê na foto abaixo. No caso, “estrangeiros” se resume aos poucos norte-americanos, franceses e outros europeus que vivem lá. O Brasil não tem embaixada ou representação no Chade, e durante todo o tempo em que fiquei ali sabia que não haveria ninguém para me proteger caso algo acontecesse.



Imagino a cena se ainda estivesse lá. Eu parada próxima a uma fila de europeus na porta da embaixada da França implorando para me levaram junto com eles. “Se sobrar um espaçozinho no avião, o senhor quebra esse galho para mim?” Só de pensar, me dá calafrios.

Felizmente estou sã e salva. Mas e meus novos amigos chadeanos, que estão ao Deus-dará no meio da guerra civil? Como ficar feliz por estar “salva” se as pessoas sensacionais que eu acabei de conhecer podem estar entre os mais de 300 mortos vítimas da guerra que acabou de começar?

Tentei ligar para eles. Cortaram a conexão dos celulares. Só me resta ficar aqui torcendo para que nada de errado se passe com eles.

Quer saber mais sobre o Chade? Leia a reportagem escrita por mim no caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, publicada neste domingo (3/2).

Comentários () | permalink
07-Fevereiro-2008, 23:51:24
Até tu, Angelina?




E nem a bonitona-e-humanitária Angelina Jolie escapou da cena clássica de se ver cercada de soldados em alguma terra distante com a qual a América trava uma guerra.

Marilyn Monroe alegrou a moçada de uniforme nos anos 50 na Coréia (foto abaixo) e outras zilhões de estrelas de Hollywood também foram dar uma forcinha aos bravos americanos que doam a vida ao seu país.



Nada contra a bela Angelina, que tem atraído a atenção do mundo todo para assuntos que ninguém dá a mínima. Apóia várias causas importantes e, corajosa, teve o filho na África. Mas ir para o Iraque, posar ao lado das tropas e até almoçar no refeitório militar é demais!

Ok, ela diz que foi para lá para “advogar”, como eles falam por aqui, a crise humanitária terrível que assola o Iraque. Mas acabou fazendo o papel da boa americana e foi lá tirar fotos com os senhores da guerra.

Um detalhe: diferentemente das guerras do passado, quando o serviço militar era obrigatório, hoje americano que se alista no exército vai porque quer – e principalmente para ganhar uma grana do governo.

Depois de dar autógrafos aos “pracinhas”, Angelina ainda deu uma entrevista exclusiva para a CNN… dureza.

Pelo menos vamos dar o braço a torcer: na entrevista, ela falou sobre os milhões de IDPs que sofrem hoje no Iraque. IDP, ou “internally displaced people”, é como a comunidade internacional chama as pessoas que foram expulsas de suas casas por causa da guerra, mas que não cruzaram a fronteira de seu país. Ou seja, por ainda estarem em seu território, não podem ser consideradas refugiados. Na prática, essas pessoas, diferentemente dos refugiados, não têm nenhuma proteção da ONU. Não há nenhuma lei ou órgão internacional que proteja os direitos dos IDPs.

No início da guerra, milhões de iraquianos fugiram para outros países, principalmente para vizinhos. Mas aos poucos essas nações começaram a fechar a fronteira, pois não tinham como absorver tanta gente.

Enquanto na Guerra do Vietnã os EUA até que receberam uma razoável quantidade de vietnamitas refugiados, são raríssimos os iraquianos aceitos aqui. A Europa também tem voltado as costas para a desgraça iraquiana.

Angelina poderia era ter se recusado a fazer parte dessa palhaçada criada pelos EUA e, aproveitando a fama, ainda protestar em frente às câmeras contra a política de imigração americana,que têm se recusado a receber iraquianos.

Posando do lado dos “marines”, Angelina provou o quanto é “boazinha”, e só. Triste.
Comentários () | permalink
08-Fevereiro-2008, 23:09:54
Kouchner, o polêmico sem fronteiras





Podem meter o pau nele, mas Bernard Kouchner (foto acima) é e sempre será uma grande figura. Para quem não sabe, Kouchner hoje trabalha como ministro das relações exteriores da França, mas, antes de se debandar para o lado do presidente-celebridade Nicolas Sarkozy, mudou os rumos do que atualmente chamamos de humanitarianismo.

Nos anos 70, o jovem médico Kouchner decidiu ir para a Nigéria pela Cruz Vermelha ajudar na guerra de Biafra, região miserável do país africano. Uma das mais antigas organizações de ajuda humanitária, a Cruz Vermelha cuida de vítimas de todos os lados de um conflito, sem tomar nenhuma posição política. Seu princípio é de que só se mantendo 100% neutro é possível ganhar a confiança de governos e rebeldes e assim chegar a vítimas que precisam de socorro imediato.

Diante de milhares de inocentes morrendo de fome por causa do embargo imposto pelo governo – arma usada pelo presidente para derrotar os rebeldes da Biafra, Kouchner ficou enfurecido com a, segundo ele, passividade da Cruz Vermelha. Abandonou a organização e fundou os Médicos sem Fronteira, hoje uma das mais competentes e respeitadas ONGs do planeta.

Os Médicos sem Fronteira iniciaram uma nova era do humanitarianismo ao tomar posições políticas diante de conflitos e usar as informações colhidas em campo para denunciar as atrocidades de governos e milícias mundo afora.

Tempos depois, Kouchner brigou com os colegas e abandonou a ONG que ajudou a criar. Fundou outras organizações parecidas, cuidou de pacientes nos mais sangrentos conflitos, advogou a causa de milhões de vítimas dos mais variados lugares. Nos anos 70, chegou a pegar um barco e resgatar ele mesmo vietnamitas refugiados rejeitados pela “comunidade internacional” (foto abaixo).



Depois trabalhou para uma uma série de governos franceses, para horror dos humanitários. Este ano surpreendeu mais ainda ao aceitar ser ministro do conservador Sarkozy, cuja vitória foi um golpe para a França esquerdista. Dizem que Kouchner se “vendeu ao sistema”, mas é difícil acreditar que uma figura tão vanguardista, polêmica e consciente de seu tempo tenha se “vendido” por tão pouco.

Na semana passada, a revista do New York Times deu uma bela capa para Kouchner (foto abaixo). O texto, muito bem escrito, descreve as vaidades de um egocêntrico humanitário, mas também relata como um jovem médico francês mudou a forma como no passado se ajuda vítimas de outros países. Kouchner deu uma banana para a tal da pseudo-neutralidade e desde então usa todas as armas políticas para levar socorro a quem está desesperado.



Pena que resolveu apoiar Sarkozy.

Ainda assim, o cara tem uma biografia e tanto. Para quem não gosta de Kouchner, uma só pergunta: e você, o que está fazendo pelo mundo a sua volta?
Comentários () | permalink
14-Fevereiro-2008, 02:29:30
“Eu peço desculpas”




Esta semana, o primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, fez um pedido formal de desculpas ao povo aborígene de seu país por todas as atrocidades que sucessivos governos cometeram contra eles. Em um discurso, ele se desculpou por leis que causaram aos indígenas “profunda tristeza, sofrimento e perda”.

Ele chegou até a mencionar a chamada “Geração Perdida”, formada por crianças aborígenes que foram roubadas de seus pais por australianos brancos para serem criadas na cultura “ocidental”. Os roubos, ocorridos do século 19 até meados dos anos de 1960s, eram fruto de uma política violenta do governo para assimilar, e assim destruir, os indígenas e sua cultura.



Em um ato histórico, o primeiro-ministro foi a público fazer um oficial pedido de desculpas por tanta violência. Isso pode não significar muita coisa na prática, muito menos pode ser encarado como substituto para tantas crianças roubadas. Mas serve, sim, para reconhecer o sofrimento de um povo que praticamente foi exterminado, para deixar um testemunho histórico de tudo o que enfrentaram e para ajudar a devolver a dignidade às novas gerações.

Grande iniciativa do governo australiano, que assim fomenta paz e reconciliação entre os dois povos de seu país.

Comentários () | permalink
15-Fevereiro-2008, 19:40:40
Vida dura



Hoje recebi uma ligação de um amigo chadeano que, por causa da guerra, teve de se refugiar em Camarões. N’Djamena, a capital do Chade, fica a poucos metros de Kousseri, cidade do país vizinho que, desde o início dos combates na capital, já recebeu mais de 30 mil pessoas (como as da foto acima).

É duro conhecer pessoas maravilhosas, que já vivem precariamente em um país miserável, e depois saber que tiveram de largar tudo para trás para não morrer em um conflito. E que hoje não têm nada nem ninguém com quem contar.

Fora os tiros trocados entre tropas do governo e rebeldes, ainda houve muitas casas pilhadas e lojas e mercados saqueados. Mesmo com o fim da batalha, centenas (ou milhares) de chadeanos não querem retornar à capital com medo de uma nova onda de violência.

E a gente aqui sem poder fazer nada para ajudar. Como diz aquela música do Chico, “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu…”.
Comentários () | permalink
sobre o blog
Neste espaço a jornalista Erika Sallum escreve para quem acha que é possível construir um mundo melhor, onde todos vivam com mais dignidade, respeito e alegria. O blog estréia do Chade, nação da África central que figura entre os lugares mais pobres e turbulentos do planeta - e para onde Erika viaja como parte de sua tese de mestrado em direitos humanos na Universidade de Nova York.
 
histórico
19-Janeiro-2008 - 18-Fevereiro-2008
20-Dezembro-2007 - 19-Janeiro-2008
 
links
Revista Criativa
Blog da Redação
Blog do Homem sincero
Blog de Viagem
Bazar Criativa
Blog Vista,sim!
Relation_Chip
Criativa no Orkut
Blog Cabeça de Gorda
 
RSS   (o que é isso?)


.