Nosso Mundo
 
07-Março-2008, 23:17:23
Tributo a Vieira de Mello



No Brasil, Sérgio Vieira de Mello nunca foi muito conhecido, especialmente por ter passado grande parte da vida no exterior. Filho de diplomatas e com décadas de carreira na ONU, Mello trabalhava como representante da organização no Iraque quando morreu em um atentado.

Homem de confiança do então secretário-geral Kofi Annan, ele teve papéis importantíssimos como mediador de conflitos em Kosovo, Timor Leste, Líbano até ser escolhido para o mais alto cargo em direitos humanos dentro da ONU.

Vieira de Mello é tema de uma super biografia lançada há duas semanas por uma das maiores especialistas em de direitos humanos dos Estados Unidos, Samantha Power. Ganhadora do Pulitzer por seu sensacional “A Problem from Hell”, Samantha escreve bem como poucos. É desafiadora, corajosa e nada burocrática. Seguindo sua linha, a autora tece elogios a Vieira de Mello, mas não deixa de apontar como, em nome da diplomacia, ele se aproximou de gente da laia de Slobodan Milosevic, Ieng Sary, sanguinário Khmer Rouge, e, claro, George Bush.



Em 2003, durante uma conferência para a imprensa sobre minas terrestres, uma bomba destruiu o edifício da ONU em Bagdá. Dezenas de altos funcionários da organização morreram. Gil Loescher, grande especialista em refugiados, ficou paraplégico.

Assisti a uma palestra de Loescher alguns meses atrás aqui em Nova York. Além de falar sabiamente sobre a tragédia de milhões de refugiados, ele mencionou o amigo Vieira de Mello de forma comovente.

O atentado mostrou ao mundo o quanto a ONU pode ser vulnerável quando percebida por uma das partes de um conflito como “estando a serviço do inimigo”. Mas, como defende Samantha em seu novo livro, se um dia administrada com seriedade e competência, tem potencial para fazer do planeta um lugar melhor. Pena que Vieira de Mello não esteja aqui para ajudar em mais essa empreitada.

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14-Março-2008, 20:49:39
Sabe o que é um IDP?




IDP, assim mesmo usando a sigla em inglês, quer dizer Internally Displaced People e, em poucas palavras, significa todo mundo que foi forçado a deixar sua casa, mas que continua dentro dos limites de seu país. Não confundir com refugiado, que é aquela pessoa que cruzou a fronteira e adentrou um outro país. IDPs continuam em seu território nacional, mas tiveram de abandonar sua cidade, estado ou região por conta de “forças maiores” – leia-se conflitos internos ou desastres naturais.

Mas qual a importância disso, não é? Toda. Acredite se quiser, mas enquanto refugiados têm toda uma lista de direitos para protegê-los, reunidos em uma importantíssima convenção internacional promulgada em 1951 (www.unhchr.ch/html/menu3/b/o_c_ref.htm), IDPs vivem ao deus-dará.

Em razão de os IDPs encontrarem-se dentro de seu território, a “comunidade internacional” defende que é seu próprio governo que deve tomar conta deles. Mas, em um raciocínio rápido, é exatamente por causa de governos problemáticos que existem tantos IDPs hoje no mundo. Como consequência, milhões de IDPs ficam sem receber ajuda ou proteção da ONU ou outros países, pois se tratam de “assuntos internos”.

Conflitos entre rebeldes e governos instáveis têm expulsado milhões de pessoas de suas casas, como é o caso do Quênia, Sudão (foto acima) e República Central Africana. Para piorar, desde do fatídico 11 de setembro, países em geral têm criado mecanismos cada vez mais duros para aceitar refugiados, e a única saída para quem precisa fugir de um conflito é ir para outra região de seu próprio país – e assim viver na penúria de ser um IDP.

A guerra no Iraque é um perfeito exemplo. EUA e Europa têm simplesmente dado as costas para os milhões de iraquianos que tentam se salvar. Países vizinhos, como Jordânia e Irã, estão apinhados de refugiados e dizem não poderem receber mais gente. A ONU calcula que existam hoje cerca de 3 milhões de IDPs no Iraque (foto abaixo), uma catástrofe humanitária poucas vezes vista.



Nosso grande Sergio Vieira de Mello (ver texto abaixo) trabalhou décadas para fazer algo por eles, e o máximo que conseguiu foi a criação de um guia com princípios básicos de proteção aos IDPs (www.reliefweb.int/ocha_ol/pub/idp_gp/idp.html). Trata-se, claro, de passo importante, mas que na prática ainda é muito pouco.

O que é possível fazer para ajudar os IDPs? Nada. Apenas ter fé de que um dia líderes mais corajosos resolvam criar vergonha na cara e ajudar quem mais precisa.
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sobre o blog
Neste espaço a jornalista Erika Sallum escreve para quem acha que é possível construir um mundo melhor, onde todos vivam com mais dignidade, respeito e alegria. O blog estréia do Chade, nação da África central que figura entre os lugares mais pobres e turbulentos do planeta - e para onde Erika viaja como parte de sua tese de mestrado em direitos humanos na Universidade de Nova York.
 
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